Brasil alcançou vitórias contra a miséria, mas segue desigual

Fonte: Rede Brasil Atual

Entre 2003 e 2013, o Brasil deu um salto na redução da pobreza e na produção da inclusão social. Em 2003, primeiro ano do governo Lula, 10% dos brasileiros estavam em condição de subalimentação. Em 2013, esse percentual foi reduzido para 1,7%. Uma queda de 82% em dez anos. Antes, de 1994 a 2002, os índices de extrema pobreza no país permaneceram congelados, em média em 8%. O longo traço no mapa da pobreza durante a era FHC é ironicamente chamado de linha dos mortos vivos, pelos estudiosos.

“O governo Fernando Henrique Cardoso não estabilizou a moeda, congelou a pobreza, a miséria”, afirmou a ex-ministra de Desenvolvimento Social e Combate à Fome do governo Dilma, Tereza Campello, durante o painel “O Brasil que Queremos”, que encerrou o seminário Sistema Financeiro e Sociedade, realizada na sexta-feira 29, parte da programação da Conferência Nacional dos Bancários. O evento é preparatório da campanha salarial da categoria, que tem data-base em 1º de setembro.

Tereza se referia aos dados do Mapa da Pobreza que em 2003 alcançavam 8,6% da população de pobres crônicos – aqueles não só não têm renda, mas não têm saúde, educação, saneamento. Esse número caiu para 2,3% dez anos depois, com políticas públicas como Bolsa Família, valorização do salário mínimo, Luz para Todos, a construção de cisternas no Nordeste, criação de empregos, fortalecimento da rede pública de bancos no Brasil para concessão de crédito. “Conseguimos realizar o que parecia impossível que era mudar esse país”, elencou Campello.

Para quem atribui a redução da desigualdade no Brasil ao período da economia em que houve o boom das commodities e economia estável, a ex-ministra fornece mais dados: de 2004 a 2009 o governo Lula reduziu em 40% a miséria e em 40% a pobreza. Passada a bonança e mesmo com a eclosão da crise financeira mundial, em 2008, o trabalho continuou: entre 2009 e 2014, já sob a presidência de Dilma Rousseff, os mesmos números apontam queda de 30% miséria e novamente de 40% na pobreza.

“Esse é o Brasil que queremos e a gente viu durante anos que é possível construí-lo”, afirmou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também compôs a mesa. “Quase que nós concluímos esse país, se não fosse o golpe.” Lula ressaltou que durante seu governo mais de 70 milhões de brasileiros passaram a ter conta corrente no sistema bancário. “Saímos de 22,5% para 56% de crédito em relação ao PIB. Saímos de R$ 380 bilhões em março 2003 para R$ 2,7 trilhões em 2013. Quem salvou este país no momento de crise mais profunda foi o pobre. Ele deixou de ser problema e passou a ser solução, na medida que passou a consumir, que passou a ter acesso ao crédito. E eu tenho orgulho porque contei com a ajuda dos bancários para tornar milhões de brasileiros deste país um pouco mais cidadãos, que passaram a ser tratados de forma mais digna.”

Bancos públicos

O ex-presidente reforçou a importância dos bancos públicos durante a crise internacional. “Incomodou muito a elite econômica brasileira quando na crise do subprime americano nós resolvemos utilizar os bancos públicos como instrumentos para não permitir que a economia brasileira quebrasse. Os bancos privados não queriam emprestar dinheiro e nós dissemos ‘os bancos públicos vão cumprir o seu papel’, e foi através da Caixa, do BNDES, do Basa, do BNB, do Banco do Brasil que nós falamos ‘esse país não vai quebrar’.”

E continuou: “Queriam privatizar os bancos do Espírito Santo e do Piauí e nós não deixamos. O Bradesco cortou o crédito de automóvel e nós compramos metade do banco Votorantim para não deixar quebrar o mercado de automóveis”.

Desafios

Tereza Campello destacou que apesar dos avanços o país continua sendo desigual. “Temos que ter um olho na utopia e outro na resistência para que tudo isso não se perca”, afirmou, mencionando os retrocessos impostos pelo governo interino. “Nosso grande desafio é que não podemos ficar satisfeitos. Por mais que a pobreza crônica no Nordeste tenha caído de 20% para 2%, o Nordeste continua sendo a região mais pobre do Brasil. Agora tem luz, tem cisterna, mas continua desigual. Por isso é fundamental, sim, que a gente tenha o FGTS nas mãos da Caixa, as políticas de agricultura familiar nas mãos do Banco do Brasil,é necessário que continuemos fazendo as políticas públicas pelos bancos públicos. Nós acreditamos que é possível acabar com a miséria e a fome no país.”

Outro participante da mesa, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, destacou que o golpe é do patrão contra os empregados e para acabar com a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), mas que vai encontrar resistência. “Estou com muita energia para enfrentar esse governo, porque está claro que o golpe é contra os trabalhadores. A primeira manifestação da Confederação Nacional da Indústria [CNI] foi para defender a jornada semanal de trabalho de 80 horas. Não vamos permitir de jeito nenhum a volta da escravidão no Brasil. Não vamos permitir retirada de direitos das mulheres, índios, negros, minorias, nunca teve um processo de afronta a democracia e aos direitos trabalhistas.”

Lula destacou que o momento é difícil para a classe trabalhadora, mas deu um recado aos bancários. “Vocês vão entrar em campanha salarial e não aceitem não dos banqueiros sem discutir o balanço deles, quanto ganharam, quanto cresceu seu patrimônio. Porque senão eles vão vir com choradeira”, disse, muito aplaudido pelos centenas de delegados de todo o país.

Livro

O Brasil que Queremos também é o nome do livro editado pelo Laboratório de Políticas Pública e pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), lançado na conferência. Organizador da publicação, o cientista político Emir Sader, colunista da RBA, destacou uma das contradições dos defensores do golpe: “Os políticos da direita dizem que vão manter os programas sociais, mas ao mesmo tempo que vão acabar com os bancos públicos [por meio dos quais se implementa esses programas]”.

Também mencionou os avanços por que passou o Brasil nos últimos 13 anos. “Saímos do FMI, saímos do mapa da fome. E o livro [O Brasil que Queremos] pretende mostrar caminhos para sair do labirinto em que a gente se encontra. Eles [governo Temer] defendem que sair da crise é cortar recursos do Estado. Mas nós temos de sair desse labirinto por cima e pensar que Estado queremos, que política de gênero, tributária, social queremos. O livro propõe ideias, repensa o futuro do país.”

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