Celso Amorim: ‘Impeachment de Collor uniu o país, o de Dilma está dividindo’

Fonte: Rede Brasil Atual

Ministro das Relações Exteriores do governo Luiz Inácio Lula da Silva e ministro da Defesa de Dilma Rousseff, o diplomata Celso Amorim afirmou em conferência realizada ontem (4), em São Paulo, que está “muito preocupado com os rumos que o Brasil está tomando” sob o governo interino de Michel Temer. “O impeachment de Collor uniu o país, e o impeachment da presidenta Dilma está dividindo”, disse.

Segundo ele, o maior risco que o Brasil corre atualmente é a urgência do governo provisório para “mostrar resultados”, o que pode comprometer a capacidade brasileira em infraestrutura. Para Amorim, essa urgência pode se traduzir em uma política de “abrir (a economia) ao capital estrangeiro”. “Não sou contra o capital estrangeiro, mas tem que ser negociado, de maneira altiva, porque pode diminuir nossa capacidade de fazer políticas.”

Ele proferiu a palestra Em defesa de uma política externa ativa e altiva, em conferência na Casa de Portugal, promovida pelo Instituto Lula, Fundação Perseu Abramo, Frente Brasil Popular, Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso),  Fundação Friedrich Ebert (FES) e o Grupo de Reflexão do sobre Relações Internacionais.

Amorim criticou as medidas que vêm sendo adotadas pelo ministro interino das Relações Exteriores, o senador José Serra (PSDB-SP), numa área em que o Brasil tem tradição histórica de equilíbrio. “Não podemos olhar para a política externa com uma atitude mesquinha. Tem gente ganhando com a ideia de o país se enxergar como vira-lata”, disse.

Ele rebateu as críticas que têm sido feitas à política do Itamaraty desde o governo Lula, e lembrou que o Brasil assumiu protagonismo mundial ao adotar posições de independência no cenário internacional. “O país tinha que reagir à agenda internacional de maneira altiva, mas também ser um construtor (de políticas) e contribuir com a agenda internacional”.

O ex-ministro citou o fortalecimento do Mercosul e da Unasul, a aproximação com a África e a atuação brasileira na criação dos Brics como fatores que mostram os esforços do país nos últimos 13 anos de desenvolver relações diversificadas. E alfinetou a proposta de fechar embaixadas na África, como defende Serra.

“Dizem que o Brasil tem mais embaixadas na África do que a Alemanha. Mas a Alemanha não tem uma população de afrodescendentes como o Brasil. Não temos que fechar, temos que abrir embaixadas na África”, defendeu. “A aproximação com a África é o resgate de uma dívida que temos com os povos africanos.”

Para Amorim, “é uma brincadeira” dizer que o Brasil está se isolando do mundo. “Como você pode isolar os Brics? Não se pode isolar os Brics”, disse. “Os Brics ferem a tradicional de divisão do poder.”

Questionado sobre uma suposta interferência de um “braço internacional” no golpe em andamento no Brasil, ele declarou ser difícil atestar a veracidade dessa avaliação, mas fez uma ressalva. “É uma questão complexa. Não sei se posso dizer que houve uma ação conspiratória, coordenada, é muito difícil provar. Mas o fato de eu não crer em teorias conspiratórias não quer dizer que não existam”, disse. Segundo ele, os governos do PT “fizeram um projeto de país com a qual (os interesses do capital internacional) não concordam”.

O alemão Thomas Manz, representante da FES, defendeu a política externa brasileira desenvolvida nos últimos anos. Ele destacou como preocupante a ideologização conservadora da política externa do governo interino. “Para nós, a política externa (dos governos petistas) é sem dúvida uma experiência exitosa. O Brasil se tornou reconhecido ator na política internacional e protagonista global.”

Segundo ele, o site oficial do ministério das relações exteriores alemão afirma que “o Brasil se tornou protagonista”. Manz afirmou ver “com surpresa” afirmações de que o Brasil “precisa voltar ao jogo da globalização”. “O Brasil está faz tempo nesse jogo, com a democratização da sua política externa.”

Direita populista

Sob Lula e Dilma, a atuação do Brasil diante de crises internacionais tem sido a de promover o diálogo, disse Amorim. Ele mencionou o acordo costurado pelo Itamaraty em 2010, quando era ministro de Lula, reunindo Irã e Turquia, e a posição do governo Dilma, em 2014, sobre os ataques militares no Oriente Médio para supostamente combater o Estado Islâmico – a presidenta condenou os bombardeios aéreos da coalizão liderada pelos Estados Unidos na Síria e manifestou essa posição em discurso na 69ª plenária da Assembleia Geral das Nações Unidas.

“O Estado Islâmico é em grande medida decorrência da destruição das estruturas de Estado no Oriente Médio. O EI surgiu num vácuo. Nada justifica o terrorismo e tem que ser combatido, mas não pode esquecer que existem grupos muçulmanos discriminados, e há ainda a questão palestina”, lembrou Amorim.

O diplomata afirmou que a atual conjuntura mundial é motivo de inquietação. “Essa onda de uma direita populista crescendo na Europa é muito perigosa.”

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