Índia une maravilhas arquitetônicas e naturais a contrastes da humanidade

Fonte: Revista do Brasil

A chegada certamente é um dos momentos mais difíceis, sobretudo se o primeiro destino não for uma das grandes e cosmopolitas cidades da Índia. De repente, você se vê sem referências: nos letreiros e placas não há sequer uma letra conhecida, as pessoas que ocupam os espaços não se parecem com alguém que você reconheça, ninguém veste uma camiseta de uma banda familiar, nenhuma palavra é inteligível.

Essas percepções pesam tanto quanto a mochila nas costas, em meio à missão impossível de encontrar o hotel. Varanasi, uma das cidades sagradas do hinduísmo, fica às margens do Rio Ganges, é organizada em vielas sem nome e grandes escadarias, ou ghats, que levam ao rio.

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Homem descansa depois de cruzar o deserto de Thar, à noite, com suas cabras. Foto: Danilo_Ramos.

Nas ruas estreitas o passo é obrigatoriamente lento. É necessário dar passagem para motos, vacas, macacos e desviar constantemente de montanhas de lixo e de crianças jogando críquete.

Entre casas, lojas de seda e empórios de temperos e chás, o transeunte encontra templos e pequenas oferendas deixadas no caminho para algum dos 330 milhões de deuses do país, que sob o guarda-chuva de “hinduísmo”, se dividem em centenas de outras crenças.

Na caminhada, o desavisado chegará com facilidade a Manikarnika Ghat onde, 24 horas por dia, todos os dias do ano, corpos dos mortos de todas as partes da Índia são cremados – acredita-se que morrer em Varanasi libera o indivíduo de suas encarnações cármicas.

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Sacerdote durante o Puja, nos Ghats de Varanasi. Foto: Danilo_Ramos.

Não é necessário mais do que isso para descobrir o segredo para os próximos dias: desapego. Não apenas aquele em voga na classe média urbana do Ocidente, que prega a fluidez de pessoas e coisas que não acrescentam mais. A Índia pede mais.

Você precisa desapegar da forma como aprendeu a viver. A morte? Também pode ter algo de alegre. Casamento arranjado? Quem disse que é necessariamente ruim e que as pessoas não querem? Garfo, faca e colher? Não, não. Bastam as mãos.

Trinta dias e nove cidades depois – a maioria delas no Rajastão, estado famoso pelos marajás, fortes seculares, elefantes e encantadores de serpentes –, você confirma: nada na Índia é pequeno ou discreto. São muitas cores contrastadas nas construções, nas roupas e nas paisagens; muitos sabores nas comidas, nos temperos e nas frutas; muitos cheiros, em uma mistura constante de especiarias, incenso e banheiro pouco limpo; e muitos sons, da música sempre presente, das celebrações religiosas e das buzinas insistentes de um trânsito caótico, onde a única regra parece ser exatamente fazer barulho.

É como se todos os sentidos estivessem aguçados, em um looping que vai do deslumbramento à saturação.

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Trabalho infantil em Sarnath: situação comum no país. Foto: Danilo_Ramos.

Viver com menos de US$ 1 por dia

A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, com 1,2 bilhão de habitantes, atrás apenas da China (1,3 bilhão). Apesar do acelerado crescimento econômico do país nos últimos 20 anos, lá está um terço da população mundial em situação de extrema pobreza. Pelo menos 400 milhões de indianos vivem com menos de US$ 1 por dia, o que delimita a linha de miséria, segundo organismos internacionais.

Em Mumbai, maior cidade do país, com arquitetura ímpar, misturando fachadas inglesas com traços orientais, quase seis em cada dez moradores vivem em favelas. Só na maior delas, Dharavi, famosa depois de ambientar o filme Quem Quer ser um Milionário?, estão 1 milhão de pessoas, em uma condição de miséria que chega a chocar mesmo quem vem de um país tão desigual quanto o Brasil.

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Crianças jogam críquete em viela de Varanasi. Foto: DANILO RAMOS
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Animais como vaca, macaco e rato são sagrados e dividem espaço com automóveis e motocicletas. Foto DANILO RAMOS

Estatísticas oficiais ganham nome e rosto nas casas das famílias, como na do jovem Laura Rajak, de 15 anos. “Meu irmão trabalha como faxineiro em um escritório de turismo e ganha 3 mil rupias por mês (o equivalente a US$ 45). Uma mixaria para cá”, diz, sobre a cidade de Kajuraho, conhecida pelos templos milenares, que exibem imagens de sexo.

“Eu trabalho em uma loja de produtos da Caxemira, mas só recebo a comissão quando há alguma venda”, conta sentado na única cama da casa de dois cômodos, sem banheiro e sem água encanada, enquanto toma um chai, tradicional bebida que mistura chá preto, temperos e leite. Desde 2009, quando seu pai morreu, a escola deixou ser a prioridade e ele passou a ser o responsável por sustentar a casa, fazendo pequenos bicos.

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O crematório Manikarnika Ghat funciona 24 horas por dia, todos os dias do ano. Foto: DANILO RAMOS

Não à toa a religião é tão forte no dia a dia dos indianos. É um refúgio em uma sociedade marcada por tanta desigualdade. O sistema de castas, por exemplo, ainda existe (apesar de ser proibido pela Constituição) e congela possibilidades de ascensão social. “Somos de uma casta muito pobre, de fazendeiros”, diz Laura, em uma tentativa de explicar, talvez para si mesmo, por que precisa lutar com tanta dificuldade apesar de ser tão jovem.

São quatro as principais castas na Índia, que se subdividem em outras: os brâmanes, composta pelos sacerdotes; xátrias, dos militares; vaixias dos fazendeiros e comerciantes; e os sudras, que devem servir as castas superiores.

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O crematório Manikarnika Ghat funciona 24 horas por dia, todos os dias do ano. Foto DANILO RAMOS

Diferentemente do cristianismo, em que a concepção do tempo é linear, no hinduísmo ela é cíclica: a vida nunca acaba. Na trilogia hindu, o deus Brahma criou o universo e fez com que os seres humanos tomassem consciência da sua existência, o deus Vishinu mantém a criação e o deus Shiva a destrói. Nenhum é mais importante ou mais bondoso que o outro, de forma que o término das coisas é tão importante quanto o começo. O fim dos ciclos, das fases, dos projetos, dos relacionamentos e até da própria vida não é algo necessariamente ruim e também deve ser celebrado.

“Na verdade aqui não ligamos mais tanto para essa história de carma. Nós temos é fome”, resumiu o tratador de camelos Kamal, de 28 anos, na cidade de Jaisalmer, quase fronteira com o Paquistão. Ele nunca frequentou a escola e trabalha desde os 12 anos com camelos.

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Deuses, carma, sagrado, profano: preocupação hoje é a fome. Foto DANILO RAMOS

A história se repete a 1.200 quilômetros dali, em Mumbai, com um lavadeiro de 23 anos que não disse seu nome. Ele vive em Mahalaxmi Dhobi Ghat, maior lavanderia a céu aberto do mundo, onde pelo menos mil pessoas podem lavar roupa ao mesmo tempo e nas mesmas condições precárias de trabalho de quando foi inaugurada, há 140 anos. “Cresci aqui trabalhando com lavagem de roupas, casei e hoje moro aqui e continuo o trabalho”, conta.

Fazer da viagem para a Índia um passeio plenamente feliz exige algum esforço. A magnitude do Taj Mahal é pelo menos um pouco ofuscada quando a 100 metros da saída você depara com uma criança usando uma vala na rua como banheiro.

As cores e aromas dos mercados do Oriente ou o charme das viagens de trem perdem um pouco do brilho quando você percebe que é a única mulher no local, até onde os olhos alcançam. A comida, de uma dieta a base principalmente de frutas e hortaliças, reforçada por algum queijo, leite e grãos, perde um pouco o sabor quando é uma criança que serve à mesa.

É uma montanha russa de emoções: em minutos você vai do mais lindo que já viu ao mais triste. A Índia escancara uma verdade que nós, ocidentais urbanos, às vezes esquecemos: grande parte das pessoas do mundo são pobres – 2,2 bilhões, segundo dados das Nações Unidas.

O “cidadão do mundo” é um sujeito asiático que não tem água potável, não foi para a escola o tempo necessário e que carrega o semblante sério de quem começou a trabalhar muito cedo. Ele mora em uma casa pouco arejada, tem pelo menos quatro irmãos e tem fome.

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