Negar indenização foi ‘segunda violência’, afirma fotógrafo que perdeu visão em protesto

Fonte: Rede Brasil Atual

“Essa decisão judicial é o que costumo chamar de um segundo ato de violência. O primeiro foi a violência física praticada pela Polícia Militar, na repressão ao 4º ato do MPL, em 2013. O segundo é o juiz promovendo essa falácia, me condenando por estar ali fazendo meu trabalho, exercendo meu direito e a minha profissão”, diz o fotógrafo Sérgio Andrade da Silva, atingido no olho esquerdo por uma bala de borracha durante protesto contra o aumento da tarifa do transporte público, em junho de 2013, em São Paulo, e que teve o pedido de indenização recusado pela Justiça de São Paulo.

Em sentença publicada na última terça-feira (16), o pedido de Sérgio foi negado com a justificativa de que ele foi culpado pelo ocorrido, por se colocar na linha de tiro. Em entrevista hoje (19) à repórter Anelize Moreira, daRádio Brasil Atual, o fotógrafo, indignado, afirma que a decisão não era inesperada. “O Estado ia dar parecer favorável ao próprio Estado.”

“Essa minha indignação não é só pessoal. É uma indignação coletiva. Nas redes sociais dá para se ver muitas manifestações repudiando essa decisão. No Estado de direito, é um absurdo você pensar que uma pessoa que vá para um ato para trabalhar, fotografar, que seja culpada pela violência que sofre.”

Além da falta de indenização, Sérgio da Silva afirma que o Estado não prestou qualquer tipo de apoio, médico ou psicológico, desde o ocorrido. “Eu não sei o que vai ser da minha vida quando eu tiver 40, 50 ou 60 anos, com essa deficiência. O Estado, sim, é responsável por esse meu estado atual de vida, e por preservar a minha condição de vida futura.” Ele perdeu a visão do olho esquerdo e, hoje, usa uma prótese no lugar do globo ocular.

Sobre a alegação de que teria deliberadamente se colocado em situação de risco em busca da melhor foto, ele rebate: “A partir do momento que a polícia começa a disparar as bombas, a primeira coisa que fiz foi me esconder atrás de uma banca de jornal, para me proteger. Era muito mais importante a minha segurança do que uma fotografia”.

Acuado, afetado pelo gás das bombas lançadas pela PM, o fotógrafo conta que, no momento em que tentou sair de trás da banca de jornal, a polícia atirava para todos os lados, sendo impossível identificar a alegada linha de tiro. “Eu não podia adivinhar e escolher que ali seria uma linha de tiro. Ao tentar fotografar essa situação da ação policial, eles atiraram no meu olho.”

Sérgio da Silva afirma que irá recorrer da decisão do juiz de primeira instância.

Legalização da violência

Para Paulo Leite Zocchi, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, a decisão legaliza a violência do Estado contra profissionais de imprensa. “Quando o juiz diz que o policial está fazendo o trabalho dele dando um tiro de bala de borracha no rosto de alguém, nesse caso de um jornalista, ele está dizendo que um jornalista pode ser agredido à vontade, que a polícia está só fazendo o seu trabalho.”

O caso se repete, configurando não um desvio, mas uma prática, com claros objetivos, segundo Zocchi: “Para nós, é muito claro: como a polícia pratica violência desmedida contra manifestantes, quer impedir que os profissionais de imprensa registrem o que ela faz. Jornalistas são alvo”.

Em 2014, o Tribunal de Justiça de São Paulo negou recurso em que o fotógrafo Alexandro Wagner Oliveira pedia indenização por danos morais e materiais, em caso similar. Ele também foi atingido, no olho esquerdo,por uma bala de borracha disparada pela PM, e perdeu parcialmente a visão.

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