Neschling se defende de acusações e diz que segue à frente do Theatro Municipal de SP

Fonte: Rede Brasil Atual

O maestro John Neschling, diretor artístico do Theatro Municipal de São Paulo, divulga carta aberta em que se defende de acusações de ter participado de esquema que resultou em desvios de R$ 15 milhões que estão sendo investigados por Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de São Paulo, aberta há cerca de três meses. “Devo ficar para provar o que não fiz. Devo ficar e continuar provando, como venho fazendo há nove meses, que não sou culpado dos crimes dos quais os delatores me acusam, sem provas.”

As investigações partiram de indícios de irregularidades identificados pela Controladoria-Geral do Município e pelo Ministério Público Estadual em contratos firmados pela Fundação Teatro Municipal e pelo Instituto Brasileiro de Gestão Cultural, responsável pelas finanças do equipamento, durante a gestão de José Luiz Herencia, empossado durante a administração de Gilberto Kassab. Ele ocupou a direção do Theatro entre 2013 e 2015, sendo o antecessor de Neschling.

Em colaboração premiada, Herencia confessou os crimes, mas acusou o atual diretor, além de outras figuras da gestão Fernando Haddad, de participar do esquema. Desde então, o maestro vem sendo pressionado a abandonar a função à frente do Theatro Municipal. O prefeito Fernando Haddad (PT) já afirmou que Herenciaage “no desespero”, e pediu cuidado em relação ao teor da delação.

John Neschling
                                                              Maestro John Neschling

Neschling reafirma a disposição de seguir no cargo e aponta objetivos político-partidários na condução dos trabalhos da CPI. Segundo ele, jornalistas da mídia tradicional vêm atuando conjuntamente com membros do Ministério Público para incriminá-lo sem provas e sem direito ao contraditório, já que seus pedidos para ser ouvido pelo promotor do caso foram negados.

O maestro denuncia, em especial, atuação de repórter do Estado de S.Pauloque atualmente integra a equipe da candidatura de Marta Suplicy (PMDB) à prefeitura, de produzir matéria que induz o leitor a acreditar que ele teria tomado parte nos desvios, sem citar os reais envolvidos.

Confira a carta na íntegra:

CARTA ABERTA DO MAESTRO JOHN NESCHLING

Eu já havia dado um depoimento exaustivo de mais de cinco horas para a CPI que investiga o Theatro Municipal. Estava ainda perplexo com a forma prepotente, autoritária e arrogante com que esses senhores reagiram ao fato de me recusar a participar da acareação com dois corruptos confessos, (sempre tratados por eles como heróis éticos) tentando cassar meu passaporte e suspender minha remuneração, abusos que foram prontamente corrigidos pela Justiça. E então, houve aquela atitude indizível dos nobres vereadores de obrigar minha esposa, a escritora Patrícia Melo, a depor na sessão de quarta-feira passada no escopo de uma investigação que tem evidentes objetivos político-partidários. Confesso que, naquele instante, cheguei a admitir ser o momento de deixar o Theatro. Afinal, há limites para tudo. Mesmo numa guerra, há limites.

Assim, resolvi marcar uma conversa com o Sr. Prefeito na sexta-feira. No nosso encontro, ele me reafirmou o que vem dizendo publicamente: que apenas por uma determinação clara da Controladoria (caso houvesse provas ou indícios de malfeitos da minha parte – o que não era o caso) ele me demitiria. Afirmou, no entanto, que entendia minhas dificuldades e garantiu que respeitaria qualquer decisão que tomasse. A conversa me deixou tranquilo e decidi avaliar a situação.

A incrível e desonesta matéria de Adriana Ferraz publicada no Estadão (edição 3/9/2016) me fez tomar uma decisão. A jornalista, inscrita como membro da equipe de Marta Suplicy no Facebook, escreve de forma a induzir o leitor a pensar que sou um corrupto envolvido no desvio de R$ 15 milhões e nem sequer cita o nome dos réus confessos. Ao ler a reportagem, lembrei-me de um texto do filósofo Baudrillard que diz que uma das características mais assustadoras do nosso tempo é o fato de a realidade não mais existir, de ela ser constantemente suplantada por algo inventado, distorcido, uma realidade midiática, com a função não de informar, mas de entreter.

Na verdade, desde que levei ao Sr. Prefeito Fernando Haddad, em setembro de 2015, as minhas suspeitas de que algo de errado ocorria na administração do IBGC e da FTM passei a ser vítima de ataques inclementes da imprensa que, sem ter uma prova sequer de meu envolvimento nos fatos, me incluía e ainda me inclui sistematicamente como corresponsável num rombo de muitos milhões de reais na administração do TM.

Jornalistas têm ido atrás de meus amigos, colaboradores no exterior, e até mesmo da minha ex-mulher na Austrália tentando colher algo que me desabone. Nem disfarçam. Em suas matérias, inventam ilegalidades relacionadas a meus colaboradores mais próximos, desvirtuam informações, distorcem fatos, omitem informações importantes, e não demonstram nenhum pudor em demolir minha imagem e um trabalho de anos que levou o TM a um reconhecimento nacional e internacional inéditos na sua história.

Em muitas ocasiões, ficou patente que certos repórteres estavam (e estão) sendo alimentados pelo próprio Ministério Público, que também investiga o Theatro. Depoimentos e materiais foram (e são) vazados para imprensa antes mesmo de serem anexados aos autos. Desde o início do ano tem sido assim.

Na verdade, a imprensa, na sua fúria condenatória, reflete bem o espírito da investigação conduzida pelo Ministério Público. Por duas vezes, em março e em agosto, requeri ao Promotor que cuida do caso que tomasse meu depoimento, ocasião em que poderia esclarecer de forma cabal as dúvidas que porventura pairassem sobre a minha atuação como Diretor Artístico do TM. Os dois requerimentos foram negados e até hoje não fui ouvido naquela investigação. O Sr. Promotor Público afirmou em mais de uma ocasião, o que foi inclusive publicado na imprensa, que estava convencido de que eu deveria ser afastado de minhas funções, antes mesmo de concluir as investigações. Chegou a pedir à Justiça, em junho, sem que eu ou meu advogado soubéssemos, o meu afastamento de minhas funções, pedido negado pelo Juiz. No meu entender, o Promotor Público, que afirma ter provas cabais de meu envolvimento em malfeitos, mas não as apresenta, não está mais investigando, mas sim elaborando a tese de minha culpa, com sua convicção formada. Tão formada que, em agosto deste ano, Paulo Dallari, com quem nunca tive uma única altercação nos meses em que trabalhamos juntos, pediu o afastamento de suas funções na FTM e no IBGC e declarou que essa atitude se devia à minha permanência no meu cargo. Afirmou que não estava podendo cumprir um acordo com o Ministério Público, que me afastaria da Direção Artística do TM!

Adriana Ferraz, na sua violenta investida (explicada em parte por seu engajamento na campanha de Marta Suplicy – que feio!) conseguiu me convencer que não devo deixar o Theatro.

Devo ficar para provar o que não fiz. Devo ficar e continuar provando, como venho fazendo há 9 meses, que não sou culpado dos crimes dos quais os delatores me acusam, sem provas. Vou ficar porque não posso aceitar que, no Brasil de hoje, a palavra dos criminosos confessos possa valer mais do que a presunção de inocência dum homem honrado e a ausência de provas contra ele. Vou ficar porque acredito na Justiça.

Vou ficar porque, mesmo à beira de meus setenta anos, com cinquenta anos de trabalho como regente e administrador de projetos tão ou mais sofisticados do que o do TM, e com uma reputação internacional ilibada, ainda posso dizer que sou bom de briga.

Vou ficar porque tivemos muitas conquistas. Porque celetizamos todos os músicos, técnicos e bailarinos. Porque criamos departamentos técnicos e artísticos no Theatro que permitiram que tantos artistas estrangeiros e brasileiros que conosco colaboraram nesses últimos anos considerassem a nossa atuação como referencial para outros teatros nacionais e internacionais.

Vou ficar porque não fiz isso sozinho. Vou ficar pelas centenas de colaboradores do TM, na querida OSM, cujo trabalho sério, organizado, disciplinado a ergueu a uma das melhores orquestras do nosso continente, no Coro Lírico, que provou por inúmeras vezes a sua disposição por um trabalho cênico sério, que com disciplina e consciência é um dos grandes Coros da América Latina, no coral Paulistano, e no Ballet da Cidade, com sua reputação nacional e internacional intactas. Vou ficar por mim, e pelos técnicos e trabalhadores que me deram apoio e infraestrutura atrás das coxias. Por todos os colegas sem os quais jamais poderíamos ter alcançado o nível que alcançamos, sem os quais não teríamos amealhado o numerosíssimo público que nos brinda com seu apoio noite após noite.

Vou ficar porque não há razão para eu sair. Vou ficar porque sou inocente.

É verdade: o TM neste momento está moribundo, sobrevivendo a custa de aparelhos, numa UTI em que a política interfere de maneira desastrosa. Sua sobrevivência está por um fio. Os coveiros de plantão, na Câmara dos Vereadores e na imprensa estão à espreita e loucos para deporem o cadáver do Theatro no túmulo dos sonhos impossíveis.

Mas eu vou ficar, ao menos enquanto continuar a gozar da confiança do sr. Prefeito. Vou ficar porque muita gente acredita em mim. Porque muita gente quer de coração que estes desejos malditos não prosperem e que nos próximos meses a normalidade volte a imperar nos trabalhos do TM.

É por isso que vou ficar. Vou continuar perseguindo, com a ajuda de muitos que amam o Theatro como eu, a buscar a excelência com a mesma paixão que sempre caracterizou o meu trabalho.

Viva o palco de São Paulo!

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