O rei está nu: a manipulação para além do escândalo Datafolha

Fonte: Brasil 247
Os estudos sobre comunicação e política identificam várias maneiras com as quais as mídias podem manipular a opinião pública. Certamente, o episódio recente da Folha de S. Paulo constitui a mais vil e descarada delas: a fraude. Não é necessário repetir aqui as informações preciosas levantadas pela colaboração competente de jornalistas independentes brasileiros e estrangeiros sobre o caso, que transformaram uma prática comum de nossos meios de comunicação em escândalo, com consequências ainda não muito claras para a reputação do jornal e de nossa mídia como um todo. Quem quiser mais detalhes, veja matéria no blog do jornalista Glenn Greenwald, um dos autores do furo metajornalístico.

O resumo da ópera é simples e deprimente. A Folha de S. Paulo encomendou para seu instituto de pesquisa, o Datafolha, uma pesquisa sobre a popularidade dos  atuais “presidentes” de nosso país, e distorceu completamente os resultados publicados na manchete da capa de sua edição de domingo. Primeiro os jornalistas investigativos implicaram com o fato de a Folha ter feito uma pergunta maliciosa para os entrevistados, limitando-os a responder se queriam Temer ou Dilma, e, ao mesmo tempo, publicado que somente 3% queriam novas eleições, ou seja, a destituição de ambos, quando pensavam ainda nesse momento que não havia essa pergunta na pesquisa do Datafolha.

A manipulação era, porém, muito mais profunda. O Datafolha havia publicado no seu site texto sobre a pesquisa no qual dizia que 60% queriam novas eleições, mas essa página logo foi retirada do ar. Os jornalistas notaram que o relatório do instituto não relatava o resultado de algumas perguntas e ficaram curiosos acerca de sua natureza. Acabaram por descobrir uma versão primeira do mesmo relatório com todas as perguntas, inclusive com uma que versava sobre a possibilidade de novas eleições, opção escolhida por 62% dos respondentes. Outras perguntas omitidas revelam alta rejeição ao processo de impeachment (37%) da maneira como está sendo conduzido. Em suma, o escândalo atinge a reputação da editoria do jornal e também do instituto, ainda que sua diretora tenha se esforçado para jogar toda culpa na Folha. Ele mostra, entre outras coisas, como na empresa familiar dos Frias até o instituto de pesquisa é manietado para cumprir à risca os desígnios políticos dos patrões.

Mas a corrupção diária da opinião pública feita pela Folha não se limita ao caso deste escândalo. Gostaria de chamar atenção aqui para outros aspectos da cobertura recente que funcionam como complemento à interpretação fraudulenta dos resultados da pesquisa. Estou me referindo ao agendamento tendencioso do noticiário com a mesma finalidade de beneficiar Temer e prejudicar Dilma.

Vejamos, no dia 14 de julho o Ministério Público Federal determinou o arquivamento da investigação pedida pelo Tribunal de Contas da União, apontando que não houve operações de crédito e que as chamadas “pedaladas” não configuram ilícito penal. Pois bem, a Folha simplesmente não noticiou o fato na sua edição do dia seguinte. É difícil falar sobre coisas que não aconteceram, mas esta omissão, dado o contexto tão delicado do processo de impeachment, constitui um caso sério de agendamento militante do jornalismo.

Agora, voltemos à edição de Domingo, 17 de julho, aquela que traz os resultados da pesquisa na capa. O editorial daquele dia contém elementos que ajudam a entender o comportamento do jornal. O texto é inteiramente pró-Temer e contrário à volta de Dilma. Louva a suposta estabilidade política trazida por Temer como “condição necessária para o país emergir desta crise profunda e multifacetada” e elogia também sua equipe econômica, chamada de “coesa e prestigiosa”. É quase uma mea culpa da declaração de rejeição do impeachment feita por Otávio Frias há algum tempo atrás, declaração essa que nunca se manifestou na cobertura golpista que o jornal faz. O apoio a Temer de fato se reflete, não somente no noticiário da capa e nos textos de opinião, como as análises do Manchetômetro já mostram, mas também na manipulação de pesquisas e reportagens.

A Folha historicamente nega que manipula a opinião. Durante as eleições de 2014 a ombudsman do jornal me ligou para fazer uma entrevista sobre o Manchetômetro. Disse que iria publicar em sua coluna. No transcorrer da conversa, ao ser confrontada com o viés brutal que nossos dados revelam contra o então governo do PT e sua candidata, ela atribuiu isso à suposta função de cão de guarda da mídia: sempre criticar o poder da vez. Pois quando respondi que nosso estudo da eleição de 1998, quando FHC concorreu à reeleição, mostra que isso não se verificou, pois o apoiaram francamente, ela ficou irritada e terminou a entrevista dizendo que não havia mais interesse em publicar coisas do Manchetômetro.

Os editores do jornal devem pensar que uma vez revelado tal comportamento, todo mundo vai começar a notar que o rei está nu. Eu antes achava que para qualquer pessoa com mais de dois neurônios e algum senso crítico o comportamento manipulador e politicamente enviesado da Folha fosse uma obviedade. Mas não. Há muita gente que ainda se seduz pela presença dos Boulos, Duviviers e Safatles nas colunas de opinião do jornal, que, a despeito de serem flagrante minoria, estão lá para cumprir a função de emprestar à Folha um verniz de pluralidade e equilíbrio. Ou seja, essa estratégia hipócrita dos editores ainda tem algum efeito.

As perguntas que não querem calar são: até quando esses colunistas “de esquerda” vão se prestar a esse papel ignóbil de fingir que estão em um jornal sério promovendo um debate sério sobre questões importantes para o Brasil? O rei está nu, e sua nudez contagia toda sua corte, revelando aos olhos do público, mais do que nunca, a hipocrisia e o apego mesquinho à autopromoção daqueles que com ele insistem em colaborar. Até quando os cidadãos e cidadãs progressistas do Brasil e blogueiros e jornalistas independentes vão ficar se preocupando em comentar as barbaridades publicadas e silenciadas por Folha, Globo, Estadão, Abril et caterva e continuar a agir de forma atomizada, sem coordenação qualquer, em uma luta de formiguinha contra o Golias midiático? É preciso que criemos canais de financiamento coletivo efetivos e um mínimo de coordenação para evitar muita redundância nos trabalhos. O Brasil progressista precisa se levantar puxando o cadarço das próprias botas, pois se não o fizermos, ninguém fará por nós.

* João Feres Júnior é professor de Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), cordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (Lemep), que abriga o site Manchetômetro e o boletim semanal Congresso em Notas.

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