Resistência é chave para enfrentar o capital, o golpe e garantir direitos

Fonte: Rede Brasil Atual

O metalúrgico e sindicalista sul-africano Andrew Chinoua foi um ds destaques da semana, na quinta-feira (23) ao falar de economia ao lado do ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP). O brasileiro não perdeu o hábito de entoar música do Racionais MC’s (“é madrugada, parece estar tudo normal, mas este homem desperta pressentindo o mal…”) e Blowin’in the Wind, de Bob Dylan. E de defender seu projeto de Renda Básica de Cidadania como solução para sobrevivência da população e também de proteção da economia. O programa foi proposto na década de 80 à Executiva do PT por ele e pelo economista Paul Singer. Mas só agora, com o afastamento da presidenta eleita, houve um aceno de que o programa pode ser implantado, caso a presidenta Dilma Rousseff retorne ao cargo.

Suplicy lembrou que Dilma anunciou reajuste de 9% no Bolsa Família semanas antes de ser afastada, mas que o programa sofrerá redução, como já anunciado pelo presidente interino, evidenciando a diferença entre os projetos de governo.

Andrew Chinoua acredita que em qualquer país a democracia só é tolerada quando atende aos ricos. “Trinta e cinco por cento dos trabalhadores sul-africanos estão desempregados e metade da população está na pobreza”, afirma. O sindicalista defende que a forma de reduzir a desigualdade e acabar com a pobreza é abolir o capitalismo, que só existe para atender aos interesses de quem lucra.

Chinoua criticou a política econômica adotada após o apartheid, que não tinha como objetivo atender a maioria do povo. “Não há direitos básicos, e um trabalhador pode ser demitido por filiar-se a um sindicato”. O sul-africano ressaltou ainda a importância da luta pelo empoderamento feminino. “Não haverá socialismo enquanto as mulheres não estiverem no centro dessa luta. Não há socialismo sem debater o que agride as mulheres. Na África do Sul, há o que chamamos de ‘opressão tripla’: no trabalho, na sociedade e em casa.”

Na Tenda dos Trabalhadores Carlos Manoel, o tema “Estado, Democracia, Desenvolvimento e a luta por trabalho decente e emancipação da classe trabalhadora” foi discutido por Janeslei Albuquerque, da direção nacional da CUT, o ministro do Trabalho do governo Dilma Rousseff, Miguel Rosseto, o coordenador nacional no Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Guilherme Boulos, o ex-superintendente regional do Trabalho e ex-deputado estadual, Robson Leite, e o secretário regional da federação internacional de trabalhadores do setor produtivo IndustriALL, Marino Vani.

Janeslei Albuquerque destacou que a CUT insiste há muitos meses que o golpe é contra os trabalhadores, com a retirada de direitos trabalhistas e cortes nos programas sociais. Citou que o Plano Nacional de Educação, que prevê a eliminação do analfabetismo até 2024 – tarde em relação ao restante da América Latina –, está sob risco. E lembrou o papel da mídia em disseminar as ideias da classe dominante e a necessidade de democratizar os meios de comunicação.

A situação de “anormalidade” enfrentada no Brasil foi observada por Rosseto como mais um episódio de conflito de interesses de classes movendo as rupturas democráticas que desrespeitam a vontade popular. “A atuação do Estado junto ao povo começou durante o cerco a Canudos (1896-1897), em seguida com a Revolta da Chibata (1910) e depois com a Guerra do Contestado (1912-1916). Os três movimentos reivindicatórios ocorreram num intervalo de duas décadas anos e tiveram em comum a violenta repressão estatal, que acabou por derrotá-los”, comparou.

Rossetto recordou os avanços nos governos petistas, na geração de empregos formais, o que garante aos trabalhadores acesso a direitos, e a redistribuição de renda, ações que diminuíram desigualdades regionais. Ressaltou ainda o desempenho da política de relações exteriores, que fomentou integração em organismos como a Unasul e o Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Por fim, E defendeu o respeito à vontade popular. “Neste país chamado Brasil, quem escolhe o presidente da República é o povo brasileiro, e não uma minoria oportunista.”

Guilherme Boulos, do MTST, apontou para o tremendo descompasso entre as forças políticas que se opõem no Brasil. “Este abismo polarizou a sociedade brasileira, onde se colocam dois desafios à esquerda: a resistência intransigente ao governo golpista e a reconstrução de nossos caminhos no sentido de radicalizar a democracia.”

A ruptura do pacto por parte da burguesia, com o golpe que levou Michel Temer à presidência, apenas acentuou atrasos sociais e econômicos que os governos Lula e Dilma não foram capazes de enfrentar. “O ajuste proposto no início do segundo mandato de Dilma, perto do que querem os golpistas, é nada, se comparado ao projeto de “terra arrasada que querem impor ao país, fazer-nos voltar 30 anos”, disse Boulos.

Robson Leite observa um processo de transferência de renda dos trablhadores e dos mais pobres para o capital financeiro. “É o que se pretende com a proposta de reformas trabalhistas que vão permitir a precarização do trabalho”, alertou. Leite citou que 50% do Fundo Social, formado por recursos vindos do pré-sal, devem ser aplicados na educação e que somente na fase de testes de exploração das reservas, o petróleo retirado já rendeu R$ 2 bilhões. “A elite brasileira não se conforma com a destinação de tamanho volume de recursos para a educação.” O ex-superintendente regional do Trabalho no estado do Rio destacou que a melhora na renda da população é fundamental para garantir o regime democrático: “Não há democracia verdadeira sem a emancipação dos pobres”.

Representando a IndustriALL, Marino Vani destacou que sempre que a humanidade passa por períodos de barbárie, há guerras ou retrocessos. Citou os trabalhadores franceses, que estão nas ruas protestando contra o aumento da jornada de trabalho, e que não é por acaso que tentativas de retirada de direitos aconteçam em outros países, inclusive no Brasil. Marino alertou que não existe mágica quando o assunto é distribuir riqueza: “Só há duas formas: salário e política social”.

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