Turquia: fracassa o assalto ao poder pelos militares

Fonte: Rede Brasil Atual

No momento em que começo a escrever este post (12:20 de sábado, 16, hora de Berlim; 07:20, hora de Brasília) a notícia mais recente é a de que um helicóptero com oito militares turcos acaba de aterrissar em Alexandrópolis, na Grécia. Os oito, provavelmente líderes do fracassado golpe, pediram asilo e foram detidos pelas autoridades gregas.

A tentativa de golpe fracassou, é tudo o que se tem de claro sobre a série de acontecimentos deflagrados na Turquia a partir do começo da noite de sexta-feira, 15.

A movimentação começou às 19:30 (hora local), com tropas golpistas circulando por Istambul e ocupando a ponte que atravessa o estreito de Bósforo, ligando a Europa e a Ásia. Vinte minutos mais tarde ouviram-se os primeiros tiroteios em Ancara, a capital do país. Pouco depois, às 20:00 (sempre hora local) o primeiro-ministro Binai Yildirum reconheceu que “havia movimentação não autorizada de tropas”, ou seja, uma tentativa de golpe.

Pelas 21:00 havia tropas golpistas tomando a TV estatal TRT e cercando o Palácio do Governo e o Parlamento, na capital. Às 21:15 a âncora da TV leu (segundo ela, sob a mira de armas) um comunicado dos militares dizendo que o golpe era vitorioso e que seu objetivo era “restaurar a democracia” comprometida pelo governo do presidente Taiyyp Erdogan.

Este se encontrava em seu retiro de férias, “em Mármara” (provavelmente uma ilha no mar do mesmo nome, perto de Istambul). Entretanto, às 21:30 o primeiro-ministro Yildirum anunciava o começo da resistência no Twitter e Erdogan lançava uma mensagem pelo seu iPhone conclamando o povo a sair às ruas em defesa da legalidade.

Às 22:00 os combates de intensificam em Ancara, e o povo, saindo às ruas, começa a cercar as tropas golpistas, também atacadas pela polícia. Fontes do governo acusam o líder religioso Fetullah Gülen, que vive exilado na cidade de Saylorsburg, nos Estados Unidos, de estar por trás do golpe.

Às 00:20 de sábado, Erdogan chega ao aeroporto de Atatürk, em Istambul, e às 00:30 o governo anuncia que o golpe fracassou. No sábado pela manhã o governo anunciava ter o controle completo da situação, embora ainda houvesse bolsões de resistência por parte dos golpistas.

Saía o primeiro balanço mais completo do saldo do golpe: 194 mortos, sendo 104 militares golpistas, 47 civis, 41 policiais e dois soldados das tropas legalistas. Havia 1.154 feridos e 2.839 militares detidos, entre eles altos oficiais, dezenas de coronéis e alguns generais. O general Hulusi Akar, Comandante das FFAA, que fora aprisionado pelos rebeldes, estava solto e em segurança. Durante sua detenção fora substituído pelo general Umit Dundar.

Alguns esclarecimentos:

Fetullah Gülen é o líder do movimento religioso Hizmet. Vive num retiro fortemente guardado na Pensilvânia e costuma ser acusado pelo governo turco por quase tudo que pode parecer uma sublevação no país. Gülen nega qualquer envolvimento com este golpe. Mas de fato, ele se opõe a Erdogan.

O movimento Hizmet não se vincula a nenhuma das correntes mais fortes da política turca, a dos secularistas, que tem, inclusive, forte penetração do Exército, e a dos islamistas, vinculada ao partido AKP, de Erdogan.

Não se sabe ainda quais os propósitos precisos dos golpistas, exceto o de derrubar Erdogan. Alguns analistas, entre eles membros do governo russo falando extraoficialmente, apontaram um ressentimento de altos oficiais das FFAA por se sentirem alijados do poder. Outros apontam a vontade de um endurecimento ainda maior na luta contra os movimentos curdos.

A Turquia tem forte tradição de golpes de estado. De 1960 para cá foram quatro (1960, 1971, 1980 e 1997). No mais grave de todos eles, o de 1980, 600 mil pessoas foram presas, houve execuções por enforcamento e muitos desaparecimentos. Dois dos líderes deste golpe foram julgados em 2012 e condenados à prisão perpétua. Em 1997 houve um golpe chamado de “pós-moderno”, em que pressões dos militares forçaram a renúncia do primeiro governo do partido islamista, o mesmo de Erdogan.

O golpe tentado nesta sexta-feira provocou um repúdio muito amplo tanto dentro do país quanto fora dele. Os governos da OTAN, de que a Turquia é membro, com o segundo efetivo militar depois dos Estados Unidos) apoiaram Erdogan em nome da legalidade. Nenhum partido de oposição apoiou o golpe.

Resta saber se estamos diante de um “virar de página” naquela tradição de golpes militares na Turquia, ou se diante de um primeiro balão de ensaio, ponta do iceberg da insatisfação na caserna.

PS – Informações mais recentes (13:00, hora de Berlim), mas não precisas, elevam para 250 o número de mortos, mas mantém a cifra de 104 militares golpistas. Entretanto, falam em 20 líderes do golpe “assassinados”. A confirmar.

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