Uma das grandes utopias da esquerda é falar com o povão

Fonte: Rede Brasil Atual

O Festival da Utopia, organizado pela prefeitura de Maricá (RJ), com forte presença dos movimentos sociais, vem debatendo ao longo dos três últimos dias grande variedade de temas, em busca de renovar sonhos e aspirações para construir um mundo justo e solidário.

Em todos os debates acompanhados, em algum momento, foi destacada a dificuldade de fazer chegar à maioria das pessoas as informações e os dados transformadores, que contrariem o senso comum conservador.

Assim, pode-se concluir que a grande utopia, ou a mais presente, em todas as inquietações e planos, é conseguir falar com o povão.

A escola não fala

Na manhã desta sexta (24), na Tenda da Diversidade, a professora Júlia Dutra, primeira mulher transexual a dirigir uma escola pública no Rio, enquanto relatava suas lutas e vitórias, lamentou: “Nosso sistema educacional estacionou no século 19. É conteudista, não considera a diversidade sexual e é extremamente repressor”. Júlia conta que o currículo e a maioria dos professores não abordam essa questão. Os alunos e alunas homossexuais, ainda na adolescência, não conseguem informações que as estimulem a seguir seu caminho com respeito e autoestima.

Também professor e pastor, o militante LGBT Marcos Lord destacou que o modelo fundamentalista religioso que ganhou mais força nos últimos tempos no Brasil está “excluindo quase todos, de tão restrito”. E concluiu: “As pessoas acabam achando que isso é verdade”.

Quase naquela mesma hora, debatia-se na Tenda Carlos Manoel, da CUT-RJ, a importância do petróleo da camada pré-sal e sua manutenção como patrimônio nacional, tendo a Petrobras como operadora única. Fator de desenvolvimento, de financiamento da educação e da saúde, objeto de cobiça por parte das grandes petroleiras estrangeiras, tudo sob risco de privatização com o atual governo ilegítimo.

Comparação esclarecedora

“Mas a maioria da população não sabe dessas coisas”, destacou, em determinado momento, José Maria Rangel, coordenador da FUP-CUT (Federação Única dos Petroleiros). Ele demonstrou angústia com o bloqueio da grande mídia, que defende a privatização, mas lembrou também da dificuldade que os movimentos sociais têm para transmitir dados em linguagem acessível.

Porém, durante o próprio debate, surgiu uma comparação esclarecedora sobre a importância do pré-sal: a camada tem reservas que equivalem a 170 bilhões de barris. Para se ter uma ideia, desde sua fundação até hoje, a Petrobras extraiu 16 bilhões de barris, lembrou Leonardo Maggi, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). “Os jovens não sabem disso. Esse tipo de tema deveria ser parte do currículo escolar”, propôs.

O professor de Relações Internacionais Igor Fuzer, da Universidade Federal do ABC, falou dos interesses dos Estados Unidos no golpe em curso no Brasil, pois estão de olho no pré-sal. “A gente precisa dizer isso para as pessoas de uma forma que elas entendam”, reiterou. Um dia antes, quinta-feira (23), a mesma constatação de incomunicabilidade com o povo permeou as falas de dirigentes e especialistas.

Comunicação alternativa

Na tarde desta sexta, o debate na tenda da CUT foi a comunicação propriamente dita. Bia Barbosa, do coletivo Intervozes e do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, foi explícita: “Nossa utopia é um dia proibir que políticos sejam donos de meios de comunicação. Utopia é o dia em que as rádios comunitárias não forem criminalizadas e tiverem alcance por todo o território. Utopia é fortalecermos um sistema público de comunicação”, alinhavou. Fez duras críticas ao monopólio da mídia, que impede que as informações de interesse popular e soberania nacional cheguem às pessoas.

“A comunicação não pode ser um tema restrito a especialistas e profissionais da área. Ela precisa ser entendida como um direito por toda a sociedade”.

Pouco antes, durante debate na Tenda dos Pensadores Darcy Ribeiro, uma pessoa na plateia pediu a palavra para reclamar que a população de Maricá não estava sabendo que o Festival da Utopia estava acontecendo na cidade, ou os que sabiam não entendiam do que se tratava.

Cruzar demandas como tática

O secretário nacional de Comunicação da CUT, Roni Barbosa, apesar do entusiasmo demonstrado, não deixou de reconhecer a dificuldade de extrapolar as fronteiras. “As redes sociais hoje são a trincheira da esquerda. Nossa dificuldade é atingir quem não está conectado nas redes. Precisamos combinar nossas narrativas de temas nacionais para que cheguem à massa que não conseguimos chegar”.

Laura Capriglione, do coletivo Jornalistas Livres, ponderou: “A esquerda é especialista em falar para si mesma”. Propôs uma nova tática: incluir no noticiário da esquerda temas que, mesmo afeitos à política, não sejam dirigidos apenas “aos tarados por política”. E deu um exemplo: “As mulheres estão bastante mobilizadas contra a cultura do estupro. Se nós publicarmos conteúdo sobre esse tema, sem falar de política no estrito senso, conseguimos trazer esses grupos para nosso lado”.

Laura cita o escândalo das merendas, em São Paulo. A torcida Gaviões da Fiel, que hostiliza o secretário Fernando Capez, acusado de desvio, o faz movida mais por causa da perseguição que Capez fez sobre as torcidas organizadas do que por questões partidárias ou ideológicas. “Mas, ao abordarmos a questão da merenda, muitos integrantes dos Gaviões passaram a seguir nosso site. Temos de cruzar as demandas dos movimentos e incluirmos mais gente no debate sobre política”, explica.

E o governo ilegítimo de Temer é uma ótima oportunidade para fazer esse cruzamento e elevar o alcance das mensagens da esquerda. “O Temer é inimigo de todo mundo. Dá pra trazer todos para nosso lado”, sugeriu.

O jornalista e escritor Fernando Morais acredita que “os blogs sujos (forma pejorativa com que José Serra se referiu à imprensa alternativa durante a campanha de 2010) vão encaçapar a Globo, o SBT, a Record, todos”. E anunciou que está escrevendo um livro sobre Lula. “Terminado este livro, não vou mais escrever nada para ser impresso. Vou militar só na internet”. O blog que ele pretende criar já tem nome: Nocaute.

Fernando Morais falou sobre os avanços da tecnologia e da facilidade hoje de poder fazer comunicação. “Os donos dos conglomerados de imprensa são inimigos do povo brasileiro e assim devem ser tratados. Lutar pela democratização da mídia não é uma luta de jornalistas, é uma luta do povo brasiliero, pelo direito á informação. A tecnologia anda mais rápido que a nossa ideologia. Você compra um celular, e tem alguma coisa a dizer, você vira um Roberto Marinho! Nós vamos ganhar essa guerra. Nós vamos fazê-los passar a pão e água, a sol e sal. Não por vendeta, mas por que vamos assumir nosso espaço.”

Deixe um Comentário

comentários

Deixe uma resposta